

O filme queimada ele começa em um navio abordo, onde um dos tripulantes explica ao inglês William Walker as características da ilha.Dai começa o filme queimada.
O William ele chega à ilha com o interesse de mudar o poder do local e ainda quebrar o monopólio português sobre a cana de açúcar. E tudo isso e para atender aos interesses da coroa inglesa.
O Walker ele alterou a ordem em queimada com a ajuda do escravo José Dolores. O William ele engana o Jose Dolores falando, que ele queria acabar com a exploração dos negros.William manipula o José e sua liderança para alcançar os interesses econômicos da Inglaterra.o William ele une dois interesses:o interesse dos negros de ser libertos e a mudança do centro do poder da ilha.
Quem consolidou a revolução foi o ex-escravo Jose Dolores. Ele descobre que não seria ele que ia governar o país e indignado ele assume o poder a força.
Mas sua liderança não dura muito tempo, pois ele não sabia liderar (ele não sabia comandar o seu pais), e ele se vê perdido, e sem preparo para isso e ele faz um pacto: ”eu concordo que o país seja governado por outro representante desde, que sejam feitas algumas mudanças como a libertação dos escravos”.
O governo da Inglaterra vai atrás do inglês William Walker, para pedir a sua ajuda para combater o ex-escravo e ele aceita.
Depois de dez anos William volta à queimada, com o intuito de eliminar a Jose Dolores. Ele era um inimigo da coroa inglesa e precisava ser eliminado como um inimigo. Dai começa a caçada contra o ex-escravo.
EM SALVADOR, A FAMÍLIA REAL FEZ SUA PRIMEIRA PARADA. A RECEPÇÃO FOI CALOROSA E A DESPEDIDA, LAMENTADA.
EDUARDO BORGES
· “O REI DA ESPANHA MENDIGANDO EM SOLO FRANCÊS A PROTEÇÃO DE NAPOLEÃO; O REI DA PRÚSSIA FORAGIDO DA SUA CAPITAL OCUPADA PELOS SOLDADOS FRANCESES; O STATHOUDER, QUASE REI DA HOLANDA, REFUGIADO EM LONDRES; O REI DAS DUAS SICÍLIAS EXILADO EM SUA LINDA NÁPOLES; AS DINASTIAS DA TOSCANA E PARMA, ERRANTES; O REI DO PIEMONTE REDUZIDO À MESQUINHA CORTE DE CAGLIARE; (...) A ESCANDINÁVIA PRESTES A IMPLORAR UM HERDEIRO DENTRE OS MARECHAIS DE BONAPARTE; O IMPERADOR DO SACRO IMPÉRIO E O PRÓPRIO PONTÍFICE ROMANO OBRIGADOS DE QUANDO EM VEZ A DESAMPARAR SEUS TRONOS QUE SE DIZIAM ETERNOS E INTANGÍVEIS”. AS PALAVRAS DO HISTORIADOR OLIVEIRA LIMA SINTETIZAM BEM A CONJUNTURA POLÍTICA EUROPÉIA EM 1807.
O REINO GOVERNADO PELA FAMÍLIA BRAGANÇA NÃO ESTAVA IMUNE ÀQUELE CONTURBADO CENÁRIO. PORTUGAL VIVIA O DILEMA DE SE COLOCAR ENTRE OS INTERESSES BRITÂNICOS E O PROJETO IMPERIALISTA DE NAPOLEÃO. EM 27 DE OUTUBRO DE 1807, A FRANÇA ASSINOU COM A ESPANHA O TRATADO DE FONTAINEBLEAU, QUE DEIXOU EXPOSTAS AS FRONTEIRAS PORTUGUESAS A UMA INVASÃO IMINENTE. UM MÊS DEPOIS, A CORTE LUSITANA ESTAVA PRONTA PARA ABANDONAR O PAÍS E TRANSFERIR-SE PARA SUA MAIOR COLÔNIA.
D. JOÃO E SUA COMITIVA PARTIRAM DA FOZ DO TEJO EM 29 DE NOVEMBRO. O DESTINO: RIO DE JANEIRO. MAS OS DEUSES METEOROLÓGICOS PROVIDENCIARAM UM DESVIO NO PERCURSO DA HISTÓRIA. EM 9 DE JANEIRO, UMA FORTE TEMPESTADE FEZ A ARMADA SE DISPERSAR, E EMBORA ALGUMAS NAUS LOGRASSEM CHEGAR À COSTA FLUMINENSE, A QUE LEVAVA O PRÍNCIPE APORTOU NA MESMA REGIÃO BRASILEIRA ONDE PEDRO ÁLVARES CABRAL DERA INÍCIO À COLONIZAÇÃO, 308 ANOS ANTES: A BAHIA. MAIS PRECISAMENTE SUA CAPITAL, SÃO SALVADOR DA BAHIA DE TODOS OS SANTOS.
EMBORA SEDUTORA, ESTA VERSÃO NÃO É A ÚNICA. A PARADA EM SALVADOR TAMBÉM PODE TER SIDO ESTRATÉGIA INTENCIONAL DO PRÍNCIPE. BASEADO NOS LIVROS DAS EMBARCAÇÕES INGLESAS QUE ACOMPANHARAM D. JOÃO, O HISTORIADOR KENNETH LIGHT LEVANTA A HIPÓTESE DE QUE A DECISÃO DE DESVIAR O PERCURSO FOI TOMADA DURANTE A VIAGEM, DEVIDO TALVEZ À FORÇA SIMBÓLICA QUE REPRESENTAVA A BAHIA NO MUNDO PORTUGUÊS.
COUBE AO GOVERNADOR, JOÃO DE SALDANHA DA GAMA MELLO E TORRES, O SEXTO CONDE DA PONTE, A HONRA DE SER O PRIMEIRO ANFITRIÃO OFICIAL A RECEBER NO BRASIL O PRÍNCIPE REGENTE VINDO DE PORTUGAL. A NAU PRÍNCIPE REAL, SOB O COMANDO DO CAPITÃO-DE-MAR-E-GUERRA FRANCISCO JOSÉ DE CASTRO E MASCARENHAS, ACOMPANHADA DE OUTRAS DE BANDEIRA INGLESA E PORTUGUESA, BAIXOU SUAS ÂNCORAS NO PORTO DE SALVADOR NO DIA 22 DE JANEIRO. SEGUNDO REGISTRO DE MELO MORAIS, FOI ESTE O PRIMEIRO DIÁLOGO ENTRE O PRÍNCIPE E O GOVERNADOR:
D. JOÃO: — NÃO VEM NINGUÉM DE TERRA?
CONDE DA PONTE: — SENHOR, NÃO VEIO IMEDIATAMENTE TODA A CIDADE, MESMO AINDA ESTANDO A NAU DE V. ALTEZA SOBRE OS FERROS, CUMPRIMENTAR E FELICITAR A V. ALTEZA, PORQUE EU DETERMINEI QUE PESSOA ALGUMA AQUI SE APROXIMASSE, SEM QUE EU PRIMEIRO VIESSE RECEBER AS ORDENS VERBAIS DE SUA ALTEZA REAL.
D. JOÃO: — DEIXE O POVO VIR COMO QUISER, PORQUE DESEJA VER-ME.
NO MESMO DIA, O CONDE DA PONTE EXPEDIU DOIS OFÍCIOS AO SENADO DA CÂMARA. EM UM DELES, DETERMINOU QUE OS HABITANTES “DEITEM LUMINÁRIAS TRÊS NOITES SUCESSIVAS” EM HOMENAGEM AOS VISITANTES. NO OUTRO, INSTRUIU O PRESIDENTE DA CÂMARA A RESPEITO DE UM ENCONTRO DOS PARLAMENTARES COM O PRÍNCIPE REGENTE, A SE REALIZAR NO DIA SEGUINTE, ATENDENDO AO “ARDENTE DESEJO, QUE TEM A CORPORAÇÃO DESSE SENADO, DE MERECER A GRAÇA DE BEIJAR A MÃO DO MESMO AUGUSTO SENHOR”. NESTE ENCONTRO O GOVERNADOR NÃO PÔDE ESTAR PRESENTE, POIS AS TAREFAS DE ANFITRIÃO LHE EXIGIAM OUTRAS PROVIDÊNCIAS.
ALÉM DO EVENTO POLÍTICO PELA MANHÃ, NAQUELE DIA 23 O PRÍNCIPE AINDA RETORNARIA À CIDADE À TARDE. PASSAVA DAS QUATRO HORAS QUANDO DESEMBARCOU, ACOMPANHADO DE SUA COMITIVA E CERCADO POR EFUSIVA E CURIOSA MULTIDÃO. EM CARRUAGENS, FORAM PELA RUA DA PREGUIÇA ATÉ A LADEIRA DA GAMELEIRA, CHEGANDO AO LARGO DO THEATRO. SEGUIRAM ATÉ A IGREJA DA SÉ ENTRE ALAS DE SOLDADOS, QUE LHES FAZIAM CONTINÊNCIAS. EMBALAVA SUA PRESENÇA O CANTO DE UM TE-DEUM LAUDEMOS ENTOADO POR MÚSICOS DA CIDADE. DEPOIS DE TODA ESTA CERIMÔNIA, O PRÍNCIPE VOLTOU A BORDO, ONDE FICARA SUA MÃE, A RAINHA.
NO DOMINGO, 24 DE JANEIRO, TODOS DESEMBARCARAM DE FORMA DEFINITIVA, COM EXCEÇÃO APENAS DE D. CARLOTA JOAQUINA, QUE CONTINUOU VOLTANDO TODA NOITE PARA DORMIR A BORDO, MANTENDO-SE ASSIM ATÉ O DIA 28. A ACOMODAÇÃO DOS VISITANTES MUDOU DE IMEDIATO A ROTINA DA CIDADE. D. JOÃO E FAMÍLIA HOSPEDARAM-SE NO PALÁCIO DO GOVERNADOR. OS OUTROS MEMBROS DA COMITIVA REAL FORAM PARA A CASA DE RELAÇÃO (SEDE DA JUSTIÇA), CUJO CORPO PASSOU A FAZER SUAS SESSÕES NOS PAÇOS DA CÂMARA. OS ARQUIVOS OFICIAIS TAMBÉM TIVERAM QUE SER DESLOCADOS — SEU ABRIGO PASSOU A SER A SECRETARIA DA ORDEM TERCEIRA DE SÃO DOMINGOS.
BUSCANDO AGRADAR AO REGENTE DE TODAS AS FORMAS, O CONDE DA PONTE ORDENOU QUE NO DIA 28 O PRIMEIRO REGIMENTO DE LINHA FIZESSE EXERCÍCIOS NO CAMPO DO FORTE DE SÃO PEDRO. E LÁ FOI O PRÍNCIPE, COM TODA A FAMÍLIA, ASSISTIR À APRESENTAÇÃO.
D. JOÃO APRECIAVA A CALOROSA RECEPÇÃO DOS SÚDITOS. GRANDE NOVIDADE ENTRE OS MORADORES, SEUS PASSOS ERAM ACOMPANHADOS COM FESTIVA CURIOSIDADE. CERTO DIA, EM UMA CAMINHADA PELA RUA DA VITÓRIA, O MONARCA DECIDIU DISTRIBUIR DINHEIRO PARA RECOMPENSAR O CARINHO POPULAR: ORDENOU A DOAÇÃO DE UMA PATACA DE PRATA (320 RÉIS) A CADA PESSOA QUE SE APROXIMASSE. TAMBÉM CONCEDEU A REDUÇÃO DE PENAS A PRESOS E O PERDÃO A ALGUNS CRIMINOSOS.
MAS NEM SÓ DE AMENIDADES FOI A ROTINA DO PRÍNCIPE REGENTE EM TERRAS BAIANAS. AS PROVIDÊNCIAS OFICIAIS TOMADAS POR D. JOÃO ESTÃO ENTRE AS PRIMEIRAS INICIATIVAS PARA REESTRUTURAR A ADMINISTRAÇÃO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO. NO DIA 5 DE FEVEREIRO, PROMOVEU A OFICIALIDADE LOCAL, AUMENTANDO OS POSTOS MILITARES DE TODAS AS ARMAS. EXPEDIU AS PRIMEIRAS ORDENS PARA A CONSTRUÇÃO DE 25 BARCAS CANHONEIRAS, PARA A REFUNDIÇÃO DE CANHÕES INÚTEIS E PARA OBRAS NECESSÁRIAS À DEFESA DO PORTO. TOMOU MEDIDAS PARA AUMENTAR O EFETIVO DO REGIMENTO DE INFANTARIA E CRIOU DOIS ESQUADRÕES DE CAVALARIA.
· POR SOLICITAÇÃO DO MÉDICO JOSÉ CORREIA PICANÇO (1745-1924), MANDOU CRIAR EM SALVADOR UMA ESCOLA DE CIRURGIA, COM AS CLASSES DE ANATOMIA E OBSTETRÍCIA, SEDIADA NO HOSPITAL MILITAR. MAIS TARDE, POR MEIO DE CARTA RÉGIA, A ESCOLA FOI TRANSFORMADA EM CURSO COMPLETO DE CIRURGIA, ORIGINANDO O NÚCLEO DA FUTURA FACULDADE DE MEDICINA DA BAHIA (QUE SERIA CRIADA EM 1832).
A PROIBIÇÃO DE INDÚSTRIAS NO BRASIL — DETERMINADA PELA RAINHA D. MARIA NO ALVARÁ DE 1785, REAFIRMANDO A SUBMISSÃO DA ECONOMIA COLONIAL — COMEÇOU A CAIR EM SALVADOR, QUANDO O PRÍNCIPE CONCEDEU A FRANCISCO INÁCIO DE SIQUEIRA PERMISSÃO PARA INSTALAR, ISENTA DE IMPOSTOS, UMA FÁBRICA DE VIDROS. POR INFLUÊNCIA DOS COMERCIANTES LOCAIS, QUE REIVINDICAVAM UMA SEGURADORA PARA DIMINUIR OS RISCOS DE SEUS NEGÓCIOS, D. JOÃO AUTORIZOU O ESTABELECIMENTO DA COMPANHIA DE SEGUROS BOA FÉ.
A INFRA-ESTRUTURA DA FUTURA CAPITAL DO REINO TAMBÉM COMEÇOU A SER PROVIDENCIADA NA BAHIA: FOI APROVADO ORÇAMENTO PARA A ABERTURA DE UMA ESTRADA PARA O RIO DE JANEIRO E ORDENADO QUE NAQUELA CIDADE SE INAUGURASSE UMA CADEIRA DE CIÊNCIA ECONÔMICA. A PREOCUPAÇÃO DO REGENTE É SINTOMÁTICA: UM NOVO CORPO DIRIGENTE PRECISAVA SER FORMADO PARA PENSAR UM PROGRAMA ESPECÍFICO PARA O ESTADO A SER ESTABELECIDO NA COLÔNIA. NAS PALAVRAS DO PRÓPRIO D. JOÃO, É “ABSOLUTAMENTE NECESSÁRIO O ESTUDO DA CIÊNCIA ECONÔMICA NA PRESENTE CONJUNTURA EM QUE O BRASIL OFERECE A MELHOR OCASIÃO DE SE PÔR EM PRÁTICA MUITOS DOS SEUS PRINCÍPIOS, PARA QUE OS MEUS VASSALOS, SENDO MELHOR INSTRUÍDOS NELE, ME POSSAM SERVIR COM MAIS VANTAGENS”. NO MESMO DECRETO, A ESCOLHA DO TITULAR DA NOVA CADEIRA ANTECIPA A IMPORTÂNCIA DE UM PERSONAGEM CENTRAL NA CONCEPÇÃO DE UM ESTADO IMPERIAL BRASILEIRO: RECEBEU A INCUMBÊNCIA O ECONOMISTA BAIANO JOSÉ DA SILVA LISBOA, FUTURO VISCONDE DE CAIRU (1756-1835).
DE TODAS AS MEDIDAS TOMADAS POR D. JOÃO NA BAHIA, A DE MAIOR VISIBILIDADE E DE MAIORES CONSEQÜÊNCIAS FOI A CARTA RÉGIA DE 28 DE JANEIRO DE 1808, QUE FICOU CONHECIDA COMO DECRETO DE ABERTURA DOS PORTOS DO BRASIL.
O CONDE DA PONTE DEIXARA O PRÍNCIPE A PAR DA SITUAÇÃO DE PENÚRIA EM QUE SE ENCONTRAVA A ECONOMIA BAIANA. A PRINCIPAL CAUSA ERA O FECHAMENTO DOS PORTOS À SAÍDA DE QUALQUER NAVIO, MEDIDA TOMADA EM OUTUBRO DE 1807 PELO PRÓPRIO D. JOÃO, EM CUMPRIMENTO AO BLOQUEIO CONTINENTAL IMPOSTO POR NAPOLEÃO. PORTUGAL VIVIA ENTÃO O DILEMA DE SE DEFENDER DAS AMEAÇAS FRANCESAS E NÃO PERDER AS BOAS RELAÇÕES COM OS INGLESES. A VINDA DA FAMÍLIA REAL PARA O BRASIL DEMONSTROU A ESCOLHA DE D. JOÃO PELA SEGUNDA OPÇÃO, MAS A PROLONGADA SUSPENSÃO DO COMÉRCIO DA CAPITANIA DEIXOU OS ARMAZÉNS ABARROTADOS DE AÇÚCAR E TABACO.
NÃO SE PODE ATRIBUIR APENAS À INQUIETAÇÃO DOS BAIANOS, NEM SÓ AOS CONSELHOS LIBERAIS DADOS AO PRÍNCIPE POR SILVA LISBOA, A DECISÃO DE ABRIR OS PORTOS AO COMÉRCIO ESTRANGEIRO. DESDE A CONVENÇÃO SECRETA DE LONDRES, ASSINADA TAMBÉM EM OUTUBRO DE 1807 ENTRE PORTUGAL E INGLATERRA, PREPARANDO O APOIO INGLÊS À TRANSMIGRAÇÃO DA CORTE, OS BRITÂNICOS PLEITEAVAM A FRANQUIA DE UM PORTO NO BRASIL. POUCO ANTES DA PARTIDA DA CORTE, STRANGFORD, REPRESENTANTE INGLÊS EM PORTUGAL, INSISTIU DURAMENTE COM O MINISTRO ANTÔNIO ARAÚJO PARA QUE A CLÁUSULA FOSSE CUMPRIDA. CHEGOU MESMO A FAZER AMEAÇAS, SENDO A PRINCÍPIO REPELIDO POR ARAÚJO.
AO CHEGAR AO BRASIL, D. JOÃO CUMPRIU O ACORDO COM A INGLATERRA. AO ABRIR OS PORTOS BRASILEIROS AO “COMÉRCIO UNIVERSAL”, NA PRÁTICA ELE BENEFICIAVA APENAS OS INGLESES, ÚNICA NAÇÃO COM CONDIÇÕES DE MANTER UMA FROTA MERCANTE E EXPLORAR O ATLÂNTICO.
A ESTADA DO PRÍNCIPE EM TERRAS BAIANAS COMEÇOU A SE ENCERRAR EM 24 DE FEVEREIRO DE 1808. SUBIRAM A BORDO NESSE DIA, MAS OS VENTOS POUCO FAVORÁVEIS NÃO DEIXARAM A COMITIVA PARTIR. CHEGARAM A VOLTAR PARA TERRA NO DIA 25, ZARPANDO DEFINITIVAMENTE NO DIA 26 DE FEVEREIRO.
A PARTIDA NÃO FOI DO AGRADO DOS BAIANOS. DESDE O PRIMEIRO MOMENTO EM QUE O MONARCA PISOU SEU SOLO, JÁ SE ARTICULAVA A PERMANÊNCIA DEFINITIVA DA CORTE E A TROCA DO RIO DE JANEIRO POR SALVADOR COMO CAPITAL DO REINO. PARA OS VEREADORES, A LOCALIDADE ERA MERECEDORA “DE SER ELEVADA A DIGNIDADE DE CAPITAL”, POR ISSO SOLICITAVAM AO PRÍNCIPE QUE “ESTABELEÇA A SUA RESIDÊNCIA NESTA CIDADE, COMO AQUELA CONSTRUÍDA PARA CABEÇA DE UM IMPÉRIO”. PARA TANTO, OS COMERCIANTES SE OFERECERAM PARA CONSTRUIR UM MAJESTOSO PALÁCIO.
JÁ NO FIM DA ESTADA, UMA ÚLTIMA TENTATIVA DE RETER O PRÍNCIPE FOI REGISTRADA EM UMA MEMÓRIA DE LOUVORES A SALVADOR, DE AUTORIA DO ADVOGADO BALTHAZAR DA SILVA LISBOA, IRMÃO DO FUTURO VISCONDE DE CAIRU. A REPRESENTAÇÃO ACONSELHAVA A ESCOLHA DA BAHIA COMO CAPITAL DO BRASIL. ALGUNS TRECHOS MOSTRAM O TEOR SUPLICANTE DOS BAIANOS. SOBRE A IMPORTÂNCIA DE SALVADOR: “ELA FOI A PRIMEIRA TERRA DO BRASIL POVOADA, E A SUA CAPITAL, E FOI TAMBÉM A PRIMEIRA QUE SAIU A RECEBER SEU SOBERANO, O SENHOR PAI DA PÁTRIA PARA BEIJAR A RÉGIA E AUGUSTA MÃO. A SUA ELEVADA POSIÇÃO PARECE TER SIDO DESENHADA PELA NATUREZA, COM O DESTINO DE AÍ ERIGIR O TRONO DO MAIOR DOS SOBERANOS”. SOBRE O PORTO E A GEOGRAFIA: “A ABERTURA DO PORTO POR SEU VISTOSO ARQUIPÉLAGO ONDE PODEM ANCORAR TODAS AS ARMADAS DO MUNDO, VÁRIOS E NAVEGÁVEIS RIOS QUE NELE ENTRAM POR MUITAS FOZ. (...) O SEU INCOMPARÁVEL PORTO, O MAIS BELO DO MUNDO, ESTÁ COMO NO CENTRO DAS COLÔNIAS DE V. A., QUE DOMINANDO A ÁFRICA LHE ABRE UMA COMUNICAÇÃO TANTO MAIS FÁCIL COM A ÁSIA”. A TENTATIVA DE CONVENCIMENTO PELA PERSPECTIVA DE CONSOLIDAÇÃO DE PODER: “VASTAS MATARIAS AO SUL ESTÃO CONVIDANDO AOS POVOS A ADMIRAR A VARIEDADE DAS SUAS GROSSAS MADEIRAS, ATRAINDO-OS AO TRABALHO DE FABRICAR TÃO RESPEITÁVEL MARINHA QUE SEGURE NÃO SÓ A ESTABILIDADE DO TRONO LUSITANO, MAS UMA SUPERIORIDADE QUE GANHE RESPEITO E ADMIRAÇÃO DAS NAÇÕES QUE HABITAM NA EUROPA”.
UM CANTO ENTOADO NA ÉPOCA ILUSTRA O SENTIMENTO GERAL DOS BAIANOS SOBRE O QUE ESTAVAM PRESTES A PERDER:
MEU PRÍNCIPE REGENTE
NÃO SAIAS DAQUI
CÁ FICAMOS CHORANDO
POR DEUS E POR TI...
MAS NADA PODERIA DEMOVÊ-LO. O PRÓPRIO CONDE DA PONTE DEU PARECER ENCAMPANDO A DECISÃO DE SEDIAR A CORTE NO RIO DE JANEIRO, CONVENCIDO PRINCIPALMENTE PELAS VANTAGENS MILITARES ENVOLVIDAS.
ASSIM, APESAR DE TODAS AS TENTATIVAS DOS BAIANOS DE MUDAR OS RUMOS DA HISTÓRIA, ELA JÁ ESTAVA MINIMAMENTE ESTABELECIDA. DE QUALQUER FORMA, EM POUCO MAIS DE 30 DIAS, AS AÇÕES DE D. JOÃO NA BAHIA FORAM UM PEQUENO ENSAIO DO QUE SERIA O PERÍODO JOANINO NO BRASIL.
EDUARDO BORGES É MESTRE EM HISTÓRIA SOCIAL PELA UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA (UFBA) E PROFESSOR NA UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA (UNEB) E NAS FACULDADES JORGE AMADO.
SAIBA MAIS:
SOUSA, AFONSO RUI DE. HISTÓRIA POLÍTICA E ADMINISTRATIVA DA CIDADE DO SALVADOR. SALVADOR: PREFEITURA MUNICIPAL, 1949.
MORAIS, MELO. HISTÓRIA DA TRANSLADAÇÃO DA CORTE DE PORTUGAL PARA O BRASIL EM 1807-1808. RIO DE JANEIRO: ED. DUPONT, 1872.
PINHO, JOSÉ WANDERLEY DE ARAÚJO. A ABERTURA DOS PORTOS. SALVADOR: PUBLICAÇÕES DA UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA, 1961.
NORTON, LUÍS. A CORTE DE PORTUGAL NO BRASIL. SÃO PAULO: CIA. EDITORA NACIONAL, 1979.
SITE:
HTTP://WWW.REVISTADEHISTORIA.COM.BR/SECAO/CAPA/EM-SOLO-BAIANO
Em contraste ao luxo da Corte, o povo do Rio no período joanino sofria com a precariedade urbana, carências e opressão. Conheça a dura realidade dos que não foram convidados para a festa.
Guilherme Martins Costa e Marina Lemle
· Formiga frita. Antes de os nobres portugueses chegarem aqui e torcerem o nariz, a iguaria era bastante consumida pelo povo local. Visto como hábito detestável pelos europeus, o quitute foi caindo em desuso. Nem por isso passou a ter frango assado na mesa dos pobres...
O imaginário popular ilustra o período joanino com palácios, carruagens, banquetes, vestidos volumosos e leques. Mas a realidade, relegada até pela própria História, era bem diferente.
Em contraste à riqueza que aportou no Rio de Janeiro em 1808, as condições urbanas da cidade e de vida da sua população eram extremamente precárias, e com o aumento repentino das demandas, as carências ficaram mais evidentes: faltava água, comida e moradia.
Autor de A corte no exílio: civilização e poder no Brasil às vésperas da Independência (1808-1821), o historiador Jurandir Malerba pinta um quadro caótico do Rio de Janeiro de 1808. Segundo o professor do departamento de História da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a cidade era “muito precária, mal traçada e mal cheirosa”.
“Não havia sistema de esgotos. Os restos da casa, do banheiro à cozinha, eram jogados na praia para que as marés lavassem, e tudo era transportado em tonéis em ombros escravos. As ruas eram escuras e perigosas. A água potável era escassa e o abastecimento de alimentos era deficitário, principalmente o de carnes, cujo consumo era um luxo só presente em poucas ocasiões festivas no ano”, explica.
Rato, angu e farinha
A vinda da Corte e o crescimento da cidade levaram a um aumento rápido da população de escravos. Em apenas três anos, o número de cativos passou de 9.602 para 18.677, o que fez com que as ruas cariocas ficassem repletas de negros, escravos ou livres. Os negros eram cerca de três quartos da população.
A professora de História do Brasil da Universidade Federal Fluminense (UFF) Sheila de Castro Farias conta que os escravos se alimentavam basicamente de farinha, feijão e charque, que eram os alimentos dados pelos seus senhores.
Mas eles também comiam caça, pesca e banana, a fruta preferida. “Eles gostavam muito de caçar pequenos animais, e alguns grupos étnicos comiam até camundongos”, conta a professora.
Nas ruas, em tendas armadas com ponto fixo em esquinas e praças, negras autorizadas pelo governo vendiam quitutes e refrescos. “As referências que temos mostram que os escravos gostavam de ir nessas tendas comer angu com pedaços de carne de porco e de boi e farinha de milho ou de mandioca”, detalha.
Sheila afirma também que os negros tinham hábitos alimentares diferenciados, oriundos de sua matriz cultural, e com inspiração religiosa. Fortalecer o espírito era mais importante que o paladar ou a nutrição. “Para eles a refeição era um ritual, e este separava homens e mulheres, que comiam alimentos diferentes”, conta.
Rio negro
A historiadora Ynaê Lopes dos Santos, da Universidade de São Paulo (USP), conta que os escravos trabalhavam na alfândega, carregavam produtos ou os seus senhores, vendiam quitutes, produziam e consertavam sapatos, trabalhavam em pedrarias e fábricas ou ainda exerciam atividades especializadas, como carpinteiros, metalúrgicos, barbeiros-cirurgiões.
Segundo Ynaê, muitos não moravam nas residências senhoriais, mas em casebres próximos ao centro da cidade, quartos alugados ou sublocados, cortiços e até mesmo quilombos. “Isso permitia que refizessem seus laços de afeto e familiares que haviam sido cortados pelo escravismo”, diz.
Mas que a vida era difícil era. Jurandir Malerba conta que, mesmo sendo maioria, os negros sofriam com a intransigência da polícia, que coibia suas principais atividades de lazer, como os jogos de casquinha e a capoeira. Havia várias formas de opressão. De acordo com Vera Tostes, diretora do Museu Histórico Nacional, os códigos sociais eram bem diferenciados para cada grupo que compunha a sociedade – a maioria de escravos, os negros livres, os brancos pobres, os funcionários da coroa e os nobres que chegavam, entre outros.
O historiador Nireu Cavalcanti, professor da UFF, observa que, equivocadamente, a historiografia obscureceu a existência do trabalhador assalariado livre: pessoas pobres, mas não negras, ex-escravas ou mulatas, que viviam da remuneração pelo trabalho braçal. A chegada da corte, sua montagem e a quantidade de serviços que exigia, gerou investimentos e aumentou a oferta de oportunidades na cidade. “Caixeiros, por exemplo, trabalhavam em lojas com regras estabelecidas em contrato assinado, em troca de proporção dos lucros, ganhos fixos ou ainda comida e moradia”, exemplifica.
“Católicos”
Já os escravos, afirma Cavalcanti, viviam nas piores condições e sonhavam com liberdade. Mas, quando conseguiam, continuavam em desvantagem social.
A religião era outro fator de opressão. Não se podia exercer abertamente uma religião que não a católica. “Faziam escondido, mas era motivo de prisão. A irmandade de Santa Efigênia, por exemplo, proibia a entrada de qualquer negro que fizesse parte de seitas africanas. E era uma irmandade de negros”, conta Cavalcanti.
Ele explica que todo ano cada pessoa tinha que se confessar pelo menos uma vez. E quem não o fizesse tinha seu nome anotado numa lista negra e podia ser preso. Tal controle fazia com que as pessoas vivessem em grande tensão, temendo o tribunal eclesiástico.
Apesar da repressão religiosa, curandeiros atendiam pessoas de todas as classes, e principalmente os pobres, que não tinham condições de recorrer à medicina oficial. Tânia Salgado Pimenta, professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), investigou documentos da Fisicatura-mor, órgão responsável pela regulamentação e fiscalização das atividades relacionadas à saúde pública entre 1808 e 1828.
“Escravos, forros e mulheres desenvolviam atividades menos prestigiadas, como os ofícios de sangrador, parteira ou curandeiro. A hierarquia adotada pela instituição reafirmava o lugar de cada um, confirmando a posição que tinham na sociedade. Os conhecimentos e as práticas de cura populares eram formalmente desvalorizados”, escreveu em artigopublicado na revista História, Ciências, Saúde-Manguinhos. Mas a população em geral confiava em seus curadores.
“Eles nutriam concepções de doença e de cura mais afinadas com as da população, preocupando-se também com dimensões espirituais atribuídas como causas às enfermidades”, explica Tania.
Obras de Jean Baptiste Debret Pinturas publicadas em Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil (1834-1839)
Site:https://www.revistadehistoria.com.br/secao/reportagem/o-outro-lado-de-1808
Entre ser derrotado por Napoleão ou ver o Brasil invadido pela Inglaterra, D. João VI escapou dos dois.
Marieta Pinheiro de Carvalho
· O poderoso exército napoleônico às portas da fronteira. Espreitando o porto de Lisboa, navios ingleses prontos para atacar. Do outro lado do oceano, a enorme e rica colônia brasileira exposta a uma possível invasão. Pressionado por duas potências rivais, a escolha de Portugal era das mais difíceis. Fosse qual fosse a decisão, o castigo do inimigo era certo.
Pois naquele fim de 1807, o que se viu foi uma fuga. Uma fuga em massa de nobres que se apinharam no porto em busca de lugares nas naus que rumariam para o Brasil. Vários atropelos aconteceram: bagagens ficaram em terra, pertences de pessoas que não viajariam foram parar nos navios, parentes foram separados durante a viagem.
Mas a impressão de retirada covarde e atabalhoada não se justifica. Historiadores do século XX demonstram que a transferência da Corte não foi nada improvisada. Cogitada em diversas outras ocasiões (veja o conteúdo complementar no fim deste texto), a mudança deve ser entendida de acordo com a política externa lusitana do período. O reino optava pela neutralidade nos conflitos diplomáticos para evitar choques maiores com as duas principais potências políticas e militares da época: França e Inglaterra. A primeira desfrutava de poderio terrestre, enquanto a segunda gozava de supremacia marítima. Muitas vezes, entretanto, era impossível manter a neutralidade - daí a necessidade de eleger uma aliança mais sólida.
Havia aqueles que defendiam a opção pela França. Um dos principais expoentes desta idéia era Antônio de Araújo de Azevedo (1754-1817), futuro conde da Barca, ministro dos Negócios Estrangeiros e da Guerra entre 1804 e 1807. Ele defendia a aproximação com o regime napoleônico, o que se tornou insustentável em 1807, quando se intensificaram as ameaças inglesas e francesas.
A coligação com a Inglaterra é explicada basicamente pelo temor de um ataque às colônias (principalmente o Brasil), diante do forte poderio naval britânico. O receio não era infundado, afinal o primeiro-ministro da Inglaterra, William Pitt (1759-1806), em discurso no Parlamento, defendera que convinha à “Grã-Bretanha fazer assentar o trono do império português” na América, onde d. João reconquistaria seu reino e ditaria “as leis à Europa, e com o cetro de ferro poderia castigar a França dos seus crimes, e a Espanha [aliada da França] da sua perfídia”. O primeiro-ministro inglês defendia abertamente, em hipótese de uma aliança luso-francesa, a invasão do Brasil.
Os portugueses foram obrigados a agir rapidamente. D. Rodrigo de Souza Coutinho (1755-1812), político experiente que estava há quatro anos afastado do governo, foi chamado em 1807 a reintegrar o gabinete de d. João como conselheiro de Estado. Ele defendia a tese de que Portugal dependia inteiramente do Brasil. Desde 1803, aliás, alertava para a necessidade de defesa contra os franceses. Os domínios portugueses corriam o risco de serem dilacerados entre França e Inglaterra, caso uma postura pró-britânica não fosse assumida. D. Rodrigo destacava a relevância da América portuguesa como a “mais essencial parte da monarquia”. Em hipótese de invasão francesa, existiria “a certeza de ir em qualquer caso V.A.R. [Vossa Alteza Real] criar no Brasil um grande império, e segurar para o futuro a reintegração completa da monarquia em todas as suas partes”. A transferência da Corte, para o futuro conde de Linhares, aparece como último recurso e associada à necessidade de defesa da soberania real. A opinião era compartilhada por outros estadistas que em períodos de maior iminência de invasão francesa enunciavam tal idéia. Foi o caso do marquês de Alorna (1754-1813), que em 1801 propôs ao príncipe: “V.A.R. tem um grande Império no Brasil, e o mesmo inimigo que ataca agora com tanta vantagem, talvez que trema e mude de projeto, se V.A.R. o ameaçar de que se dispõe a ir ser Imperador naquele vasto território”.
De qualquer forma, estava claro que, na iminência de um ataque, a mudança seria a melhor opção para preservar o trono português, independentemente de que lado se fizesse a aliança. Mas era hora de decidir. O conflito na Europa se agravava, e o debate político em Portugal buscava uma definição: afinal, a quem se aliar? Em julho de 1807, Napoleão Bonaparte (1769-1821), imperador da França, insistiu que o governo português prendesse e seqüestrasse os bens dos súditos britânicos, fornecesse dinheiro para sustentação da guerra e reunisse suas forças navais às franco-espanholas. E deu como prazo-limite 1o de setembro. A Inglaterra, por sua vez, estacionou navios na frente de Lisboa, sufocando o comércio e ameaçando uma intervenção militar.
”. Melo e Castro, que havia sido embaixador de Portugal em Londres, observava a necessidade de o príncipe regente retirar-se para o Brasil, de forma a preservar a monarquia.?As reuniões no Conselho de Estado português se intensificaram. D. João de Almeida de Melo e Castro (1756-1814) perguntava: valeria a pena “os terríveis golpes” ao comércio, “o retardo da correspondência com nossas colônias, [...] para saciar a ambição e animosidade da França
Chegou-se a preparar uma frota para a transferência do filho de D. João, o príncipe da Beira, d. Pedro de Alcântara (1798-1834), futuro imperador d. Pedro I do Brasil. O príncipe, que tinha apenas 9 anos, deveria ser acompanhado ao Rio de Janeiro por d. Fernando José de Portugal, que governou a Bahia e foi vice-rei do Brasil. Tal medida chegou a ser informada à França, mas segundo o historiador Enéas Martins Filho era apenas uma cortina de fumaça para ocultar a trama secretamente organizada: a mudança de toda a família real.
Longe de ter sido uma fuga impensada, a transferência da sede do governo português para seus domínios americanos possibilitou a permanência do trono de Portugal nas mãos da Casa de Bragança. Do outro lado do Atlântico, inaugurou um novo momento na história do Brasil.
Conteúdo complementar: Uma idéia fixa
Marieta Pinheiro de Carvalho é doutoranda em História Política pela UERJ e autora da dissertação Uma idéia de cidade ilustrada: as transformações urbanas da nova corte portuguesa (1808-1821), defendida nessa mesma universidade em 2003.
Saiba Mais:
MANCHESTER, Alan K. “A transferência da Corte portuguesa para o Rio de Janeiro”.In.: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: Departamento de Imprensa Nacional, 1968, vol. 277, pp.3-44.
MARTINS FILHO, Enéas. O conselho de estado português e a transmigração da família real em 1807. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1968. (deixar)
LIMA, Oliveira. D. João VI no Brasil. Rio de Janeiro: Topbooks, 1996.
LYRA, Maria de Lourdes Viana A utopia do poderoso Império. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1994.
Site: https://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/a-unica-saida
Momentos dramáticos marcaram os preparativos de um acontecimento inédito: a transferência em peso de uma casa real européia, a bordo de 15 navios, para o continente americano
Lilia Moritz Schwarcz
· Na madrugada de 25 de novembro de 1807, quando d. João encerrou a sessão do Conselho de Estado, a decisão estava tomada. A família real deveria embarcar para o Brasil daí a dois dias, antes que as tropas de Napoleão, que já tinham cruzado as fronteiras lusitanas, alcançassem Lisboa. Chegara enfim a hora de se executar um plano que já se conhecia de cor, e de traçar, rapidamente, o procedimento operacional de uma gigantesca tarefa: mudar, da terra para o mar, tudo e todos que significassem a sobrevivência e a sustentação do governo monárquico a ser instalado no Rio de Janeiro.
Fazer as malas, zarpar rumo ao Brasil e lá estabelecer um império não era uma idéia nova. O translado da família real para essa colônia pairava como uma possibilidade acalentada há tempos e sempre ventilada nos momentos em que a realeza portuguesa sentia-se ameaçada em sua soberania. Já em 1580, quando a Espanha invadiu Portugal, o pretendente ao trono português, o prior do Crato d. Antônio – filho ilegítimo do infante d. Luís – foi aconselhado a embarcar para o Brasil. Também o padre Vieira apontou o Brasil como refúgio natural para d. João IV – “ali lhe assinaria o lugar para um palácio que gozasse, ao mesmo tempo, as quatro estações do ano, fazendo nele o quinto império (...)”. Em 1738, no reinado de d. João V, o conselho veio de d. Luís da Cunha, que via na mudança possibilidades de um melhor equilíbrio entre a metrópole e a colônia, então abarrotada de ouro. Em 1762, temendo uma invasão franco-espanhola, Pombal, ministro de d. José I, fez com que o rei tomasse “as medidas necessárias para a sua passagem para o Brasil, e defronte do seu Real Palácio se viram por muito tempo ancoradas as naus destinadas a conduzir com segurança um magnânimo soberano para outra parte de seu Império (...)”.
Não é, pois, de estranhar que, no meio da convulsão européia, os políticos que rodeavam o príncipe d. João trouxessem à tona a velha idéia. Mas o tempo era curto, a viagem longa e cheia de imprevistos. Era a primeira vez que uma casa real cruzava o Atlântico e tentava a sorte afastada do continente europeu. Longe dos tempos dos primeiros descobridores, que atravessaram o oceano para encontrar riqueza e glória em terras americanas, agora era a própria dinastia de Bragança que fugia (na visão de alguns), evitava sua dissolução (na visão de outros), ou empreendia uma política audaciosa, escapando da posição humilhante a que Napoleão vinha relegando as demais monarquias.
· O plano era mais complexo do que se podia imaginar. Afinal, seguiriam viagem, acompanhando a Família Real, não apenas alguns poucos funcionários selecionados. Já em relativa prontidão e expectativa, encontravam-se outras inúmeras famílias – as dos conselheiros e ministros de Estado, da nobreza, da corte e dos servidores da Casa Real. Não eram, porém, indivíduos isolados que fugiam, carregando os seus objetos pessoais, suas indecisões e receios. Era, sim, a sede do Estado português que mudava temporariamente de endereço, com seu aparelho administrativo e burocrático, seu tesouro, suas repartições, secretarias, tribunais, seus arquivos e funcionários. Seguiam junto com a rainha e o príncipe regente tudo e todos que representassem a monarquia. As personagens, os paramentos necessários para os costumeiros rituais de corte e cerimoniais religiosos, as instituições, o erário... enfim, o arsenal necessário para sustentar e dar continuidade à dinastia e aos negócios do governo de Portugal. Como disse Joaquim José de Azevedo, futuro visconde do Rio Seco, o que atravessaria os mares era aquela “amplidão que tinha exaurido sete séculos para se organizar em Lisboa”, e todo esse aparato devia tomar o rumo do cais.
No cais de Belém, de um momento a outro, acorreram milhares de pessoas, com suas bagagens e caixotes, isso sem esquecer de toda burocracia do Estado e das riquezas que viajavam com o rei. Não havia tempo a perder, e imediatamente deliberou-se que os ministros de Estado e empregados do Paço viajassem com a família real. Outra ordem deixou claro que todos os súditos que pretendessem seguir viagem estavam livres para tanto e, não havendo lugar nas embarcações, poderiam preparar navios particulares e acompanhar a real esquadra.
Já era meia-noite, mas, apesar do horário avançado, Joaquim José de Azevedo foi chamado ao Palácio da Ajuda e nomeado superintendente geral do embarque. Além dele, foram convocados o marquês de Vagos, chefe da câmara real, e o conde do Redondo, responsável pela ucharia – setor equivalente à despensa, onde se abrigavam todos os pertences da casa real, tanto os alimentos, como os utensílios domésticos. Já o almirante Manoel da Cunha Souto Maior, comandante geral da esquadra portuguesa, ficou encarregado de apresentar mapas das disposições dos navios. Em seguida, o superintendente tratou dos procedimentos para o traslado dos tesouros reais do Palácio das Necessidades e o da Igreja Patriarcal. Foi depois para o cais de Belém, onde, munido dos mapas entregues pelo almirante, mandou armar uma barraca “para dali repartir as famílias pelas embarcações, segundo a escala de seus cômodos, assim como para enviar todos os volumes do Tesouro que chegavam. Tal lida continuou até o momento de embarque de d. João”. Havia uma ordem de que ninguém poderia embarcar se não tivesse em mãos uma “guia” fornecida por ele.
· Quem também não perdeu tempo foi d. Antonio de Araújo e Azevedo, famoso representante do grupo francês. Naquela mesma madrugada, mandou que seu funcionário, Cristiano Müller, encaixotasse os papéis de Estado que estivessem sob seus cuidados e nesse lote incluiu também sua livraria particular: 34 grandes caixotes foram acomodados na nau Medusa. Foram eles que embarcaram no lugar da Real Biblioteca, que ficou esquecida no cais.
A pressa impedia que os procedimentos se dessem de maneira organizada. As autorizações, licenças, nomeações e ordens de embarque vinham de variadas fontes. Bom exemplo é o caso do mestre de equitação do palácio real, Bernardo José Farto Pacheco que, para poder embarcar, recebeu ordens do estribeiro-mor, do intendente das reais cavalariças e ainda do conde de Belmonte. Detalhe: Bernardo não conseguiu viajar, pois apesar do alvará, o comandante da fragata não o aceitou a bordo, pela falta da guia necessária.
A despeito do estado de alerta e do fato de que a frota, ou parte dela, estivesse sendo armada desde fins de agosto, o ambiente era caótico. No começo de novembro, antes da partida da família real, um rico mercador de Lisboa escrevia ao sogro que ainda não conseguira passagem porque muitos queriam partir e eram poucos os navios. Porém, desconfiado, parecia decidido a deixar a capital, pois “os preparativos nos navios continuam a toda pressa e tudo indica que se trate de embarque”.
· Mesmo assim, nenhum expediente realizado previamente e nem as prontas providências coordenadas por Joaquim José de Azevedo foram suficientes para impedir que o caos se estabelecesse na hora do embarque. Pior é que Lisboa vinha sendo castigada por um forte vento sul; chovia torrencialmente e as ruas e caminhos se transformaram em passarelas de lama, dificultando as idas e vindas até o cais de Belém. E não era tarefa simples reunir, distribuir e embarcar os ilustres viajantes, dividir os marinheiros e oficiais da Marinha e ainda abastecer os porões dos navios com uma quantidade suficiente de víveres e água potável. No registro de uma testemunha, arregimentou-se “muita gente para dar a 17 navios de guerra um bastante número de marujos e finalmente procurou-se pôr neles os mantimentos necessários, que contudo alguns navios não puderam haver como precisavam na confusão causada pela urgência do caso”.
Os casos e incidentes se multiplicavam. Foi durante esses dias de corre-corre, ainda antes do embarque, que o núncio apostólico de Lisboa, d. Lourenço de Caleppi, compareceu ao palácio da Ajuda, em visita de solidariedade. Freqüentador da Corte, foi convidado por d. João a acompanhá-lo na viagem. Apesar de seus 67 anos, o núncio aceitou a proposta e, conforme as instruções recebidas, foi imediatamente procurar o ministro da Marinha, visconde de Anadia, que lhe destinou a nau Martim de Freitas, ou a Medusa, onde, junto com seu secretário, Camilo Luis Rossi, teria lugar garantido. Mas a confusão era tamanha que de nada adiantaram as referências de Caleppi, que não conseguiu lugar em nenhuma das naus que lhe haviam sido reservadas.
O tenente irlandês Thomas O’Neill, que estava em um dos navios da esquadra inglesa, consultou a descrição feita a ele por um oficial a serviço de d. João. Ainda que evidentemente exagerado, o relato não deixa de passar uma idéia do ambiente naqueles dias, quando o “pânico e o desespero tomaram conta da população e muitos homens, mulheres e crianças tentaram embarcar nas galeotas até algum navio”. Foi o irlandês quem registrou que “muitas senhoras de distinção meteram-se na água, na esperança de alcançar algum bote, pagando algumas com a própria vida”.
Agravando ainda mais a situação, famílias de camponeses, assustadas com as notícias de que os franceses estariam se aproximando, haviam abandonado tudo – “o trigo nos celeiros, o milho um nas eiras, outro nas terras, a fruta nas árvores, a uva nas vinhas, os gados dispersos (...) e cheias de aflição se refugiaram na capital, onde se acham receando não terem com que subsistir. Mas neste caso o remédio é recorrer aos amigos; estes são os Santos, e mais que todos o Santo dos Santos, Jesus Cristo. (...)”
· Nas praias e cais do Tejo, até Belém, espalhavam-se pacotes, caixas e baús largados na última hora. No meio da bagunça e por descuido, a prataria da Igreja Patriarcal, trazida por quatorze carros, foi esquecida na beira do rio e só alguns dias depois voltou para a igreja. Carros de luxo foram deixados, muitos sem terem sido descarregados. Alguns até optaram por largar a mala, embarcando de mãos vazias, apenas com a roupa do corpo. O marquês de Vagos percebeu um pouco tarde que as carruagens e arreios da casa real tinham sido esquecidos, e ali mesmo, do convés do navio onde se acomodara e que já partia, teve tempo de expedir um aviso, “em linguagem rude”, para que fretassem um “iate” para transportar todo aquele equipamento para o Brasil.
O tom geral era de nervosismo e destempero. “A desgraça, a desordem e o espanto existiam por toda a parte em Lisboa, quer em terra quer no mar (...). Copiosas e tristes algumas lágrimas derramaram-se por esta ocasião, uns choravam a separação de pais, maridos, filhos e mais pessoas queridas, outros a criticar posição da pátria invadida por exército inimigo e ao recordarem-se dos males que iriam sofrer ficando sem protetores e no meio dos terríveis franceses.” De fato, a reação dos lisboetas oscilava do espanto à revolta. Joaquim José de Azevedo, que, como vimos, tinha armado uma barraca no cais para organizar o embarque, assim interpretou o sentimento do povo: “vagando pelas praças e ruas, sem acreditar no que via, desafogava em lágrimas e imprecações a opressão dolorosa que lhe abafava na arca do peito, o coração inchado de suspiros: tudo para ele era horror; tudo mágoa; tudo saudade; e aquele nobre caráter de sofrimento, em que tanto tem realçado acima de outros povos, quase degenerava em desesperação!”
As descrições de época sobre o embarque de d. João são em geral tão dramáticas quanto contraditórias. Numa das versões, ele teria chegado ao cais vestido de mulher; em outra teria partido durante a noite a fim de evitar maior reação popular. Em outra, ainda, teria entrado no porto acompanhado apenas por seu sobrinho e ninguém o aguardava. Dois cabos de polícia que estavam ali por acaso, ajudados por gente do povo e debaixo de forte chuva, colocaram algumas tábuas sobre a lama para que pudessem caminhar até o coche e de lá tirar d. João, que foi acomodado na galeota que o conduziria ao navio Príncipe Real, atracado na barra do Tejo. Outros relatos, ainda, insistem na insensatez do embarque, ridicularizando a atitude da família com a única frase lúcida emitida pela rainha, a esta altura, demente: “Não corram tanto ou pensarão que estamos fugindo.” Não é o caso de multiplicar as narrativas desse momento, carregadas de adjetivações e muita imaginação. No entanto, em tempos de rachadura do absolutismo, a representação parecia anunciar o fim de uma era: foi com muita discrição e sem nenhuma pompa que o príncipe regente deixou Portugal e embarcou rumo ao Brasil.
· Concluídos os trâmites para a partida e com todos a bordo, só faltava o tempo melhorar para que se desse a ordem de zarpar. O dia 29 amanheceu claro e a esquadra saiu do Tejo, alcançando o mar. Nas portas do oceano, os navios ingleses estavam de prontidão. O encontro das frotas foi anunciado, reciprocamente, por uma salva de vinte e um tiros, como que a selar o pacto pacientemente aguardado pela Grã-Bretanha. Enquanto isso, o almirante inglês Sidney Smith destacou as quatro naus que acompanhariam a esquadra portuguesa até o Rio de Janeiro. Em seguida, foi a bordo do Príncipe Real cumprimentar o regente e recebeu, do vice-almirante português, a lista das 15 embarcações que compunham a real esquadra: oito naus de linha, quatro fragatas, dois brigues e uma escuna. Este número varia nos registros das testemunhas e também em estudos posteriores, mas a diferença não altera a visão de conjunto. Além da frota real, havia número expressivo de navios mercantes particulares que saíram em seu rastro. Seriam cerca de 30, mas podem ter sido muitos mais. O navio inglês Hibernia avistou 56 navios, ao anoitecer do primeiro dia de viagem. O próprio comandante Smith mal fez as contas, o que ele via era “uma multidão de grandes navios mercantes armados”. De toda a forma, a esquadra real compunha uma respeitável unidade de combate. Os oito navios de guerra eram equipados com baterias de canhões que variavam entre 64 e 84 peças, a maioria com calibre 74. As fragatas estavam armadas, cada uma, com 32 ou 44 canhões, os brigues tinham 22 peças cada um e a charrua, que transportava mantimentos, 26 canhões.
A família real – d. Maria, o príncipe regente e sua mulher, seus oito filhos, a irmã da rainha, a viúva do irmão mais velho de d. João e um sobrinho espanhol de Carlota Joaquina – foi distribuída pelos navios de maior calibre. No Príncipe Real estavam a rainha d. Maria, com 73 anos; o príncipe regente d. João, com seus 40 anos; o príncipe da Beira, infante d. Pedro, de 9 anos; seu irmão infante d. Miguel, com 5 anos; e o sobrinho d. Pedro Carlos. No Afonso de Albuquerque iam a princesa, mulher do regente, dona Carlota Joaquina, 32 anos, com suas filhas: a princesa da Beira Maria Teresa, 14 anos, e as infantas Maria Izabel, Maria d’Assumpção e Anna de Jesus Maria, de 10, 2, e 1 ano, respectivamente. No Rainha de Portugal viajavam a viúva do irmão mais velho do regente, dona Maria Benedita, com 61 anos; a irmã da rainha, dona Maria Ana, de 71; e ainda as outras filhas de d. João e Carlota Joaquina, as infantas Maria Francisca de Assis e Isabel Maria, de 7 e 6 anos.
Há muitas dúvidas sobre o número de embarcados. O secretário do bispo Caleppi, que a tudo assistiu de perto, avaliou que 10 mil pessoas faziam parte da esquadra real. Já Pereira da Silva incluiu em seus cálculos os muitos negociantes e proprietários que haviam fretado navios para seguir a esquadra e não demonstrou dúvidas: “cerca de quinze mil pessoas, de todos os sexos e idades, abandonaram neste dia as terras de Portugal”. Uma minuciosa listagem relaciona, nominalmente, cerca de 536 passageiros – nobres, ministros de estado, conselheiros e oficiais maiores e menores, médicos, padres, desembargadores. Isso sem contar os termos imprecisos que surgiam ao lado do nome dos passageiros, tais como: “visconde de Barbacena com sua família”; “o conde de Belmonte, sua mulher e o conde seu filho com criados e criadas”; “José Egídio Alves de Almeida com sua mulher e família”; “e mais sessenta pessoas, entre homens e mulheres, sem contar as famílias que os acompanhavam” ou mesmo o indefinido “e outros”. Para se ter uma idéia, junto com o duque de Cadaval embarcaram a mulher francesa, quatro filhos, um irmão, e mais onze criados, incluindo um “homem pardo criado para varrer” e algumas famílias aditadas à mesma casa. O marquês de Belas levou um séqüito de 24 pessoas. O mesmo documento listou os oficiais da casa real, que não eram poucos. Apenas a ucharia empregava 23 “moços”, sendo que cada um deles vinha acompanhado de sua família, o mesmo se dando com os 14 moços da cozinha real. Um outro documento, redigido no calor da hora, pretendia registrar todos os passageiros, mas depois de relacionar alguns dos mais conhecidos nomes da nobreza, a escrita foi encerrada bruscamente com uma informação taxativa: “E mais 5.000 pessoas.”
· Se levarmos em conta a população dos navios mercantes, a figura será ainda outra, pois o número de marinheiros e oficiais era elevado. Uma série de manuscritos existentes na Biblioteca Nacional revela que ao atingir o litoral brasileiro, em janeiro de 1808, alguns dos capitães elaboraram uma listagem informando ao conde dos Arcos, vice-rei do Brasil, a situação de suas guarnições. O comandante do Martins Freitas, além de fazer um mapa minucioso da tripulação, relatou que também estavam a bordo as famílias pertencentes aos oficiais da guarnição e parte da família do duque de Cadaval. O fato é que cada navio carregava uma pequena multidão. A acreditar-se que parte significativa dos oficiais e de suas famílias teriam permanecido na colônia, não estranharia chegar-se a mais de 10 mil emigrados. A cifra, porém, continua e continuará controversa.
De toda maneira, o número de embarcados era bem elevado e, com certeza, superior às primeiras estimativas e provisões. Esse era o drama da nau Minerva, que não havia sido preparada com antecedência e apresentou problemas na hora do embarque. Conta o capitão que, até o dia 26 de novembro, esta fragata esteve “de banda por não ser possível aprontar-se”. Apesar de só ter a bordo “algum biscoito e aguada” e das “tristes circunstâncias em que se achava o Real Arsenal da Marinha, pela confusão e falta de expediente nas diferentes repartições”, o capitão não perdeu tempo para atender ao príncipe e partir no dia 29. Quando atracou na Bahia, em 10 de janeiro de 1808, a Minerva estava a zero.
A viagem não seria fácil, ainda que não se tenha notícia de acidentes graves ou algum óbito. Famílias desmembradas e alojadas em diferentes navios, bagagens desviadas ou largadas no cais, racionamento de comida e água, excesso de passageiros e falta de higiene – que obrigou as mulheres a cortar os cabelos para evitar a ação dos piolhos – foram alguns dos problemas decorrentes da emergência do embarque. E pela frente, cerca de dois meses de viagem. Para complicar, uma tormenta se armou logo no início da jornada, e outra, em meados de dezembro, lá pela altura da Ilha da Madeira, provocando a dispersão de alguns navios e uma mudança de planos: apesar de parte da frota já ter tomado a direção do Rio de Janeiro, o Príncipe Real e as embarcações que o acompanhavam alteraram o rumo, em direção à Bahia.
· Excluindo esses momentos mais inseguros, a viagem correu tranqüila, no que diz respeito aos humores da natureza e à estrutura das embarcações, que, apesar das avarias, alcançaram seu objetivo. O cronista Luiz Edmundo descreve os transtornos que se deram pelo excesso de passageiros: “muitos sem cama onde dormir, cadeira, banco para sentar, deitando-se ao relento, sobre as tábuas nuas dos conveses, sem prato certo onde comer, disputando em sórdidas gamelas, nas cozinhas, o alimento frugal”. E a travessia arrastava-se monótona. Além de acompanhar a evolução dos veleiros da frota, cantava-se ao som da viola ao poente e, nas noites de luar, jogava-se cartas: o faraó, o espenifre, o pacau e o chincalhão.
Depois de 54 dias no mar, em 22 de janeiro de 1808, o Príncipe Real atracou em Salvador – onde se quedaria por um mês, seguindo depois para o Rio de Janeiro. Atrás dele e aos poucos, foram chegando os outros navios. A situação era inesperada, assim como imprevisível era a novidade de uma corte migrada e aportada em sua colônia. Mas a história não é mesmo um exercício do certo. Ainda em alto-mar, d. João recebeu um belo presente do governador de Pernambuco: o brigue Três Corações foi ao seu encontro, carregado de mantimentos e muitas frutas tropicais. Entre cajus e pitangas, a colônia americana abria as portas para um evento inusitado: receber o seu príncipe português.
Lilia Moritz Schwarcz é professora do departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo e autora do livro A longa viagem da biblioteca dos reis: do terremoto de Lisboa à Independência do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2002, em co-autoria com Paulo Cesar de Azevedo e Angela Marques da Costa, obra da qual foi retirada grande parte deste artigo.
Site: https://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/o-dia-em-que-portugal-fugiu-para-o-brasil
Em toda a América Latina, o início do século XIX foi marcado por guerras, revoluções e reviravoltas políticas...
Maria Elisa Mäder
· Guerras, revoluções, novas repúblicas, reviravoltas políticas. Enquanto o Brasil era governado pelo rei de Portugal, sua vizinhança foi um barril de pólvora. Em menos de duas décadas, a América espanhola se transformou radicalmente, numa sucessão de independências conquistadas na ponta da espada.
Histórias diferentes, mas com o mesmo ponto de origem. A invasão napoleônica da Península Ibérica em 1807 provocou mudanças definitivas nos domínios coloniais de Portugal e Espanha. D. João viu-se forçado a transferir sua Corte para o Brasil a fim de manter o trono. Já o rei espanhol, Fernando VII, não teve a mesma sorte e acabou deposto. Pior: o trono passou para as mãos de José Bonaparte, irmão de Napoleão. Como conseqüência, suas colônias na América enfrentaram uma fase de intensa experimentação política.
No século anterior, os reinados de Carlos III e Carlos IV (que em 1808 abdicaria do trono em favor de seu filho Fernando VII) haviam testemunhado o desenvolvimento de um pensamento político moderno iluminista – que enfatizava a liberdade, a igualdade, os direitos civis, o governo das leis, a representação constitucional e o liberalismo econômico – entre pequenos, mas significativos, grupos de espanhóis peninsulares e espanhóis americanos. Baseados nestas idéias, os dois monarcas da dinastia Bourbon impuseram às colônias uma série de reformas políticas e administrativas, com o objetivo de aumentar a prosperidade econômica da Espanha e recuperar a supremacia política perdida. As medidas agravaram o descontentamento da elite colonial crioula (como eram chamados os brancos nascidos na América espanhola) ao afrontar os sentimentos de autonomia e de identidade que vinham ganhando corpo durante os três séculos de colonização.
A desarrumação causada pela invasão napoleônica abriu caminho para que esta elite crioula motivasse um crescente debate nas colônias sobre soberania, representação do povo na política, a idéia de nação e a necessidade de dar uma nova Constituição à monarquia.
A administração do reino sofreu sucessivas mudanças. A princípio, formaram-se, na Espanha e na América, juntas de governo locais, que invocavam o princípio legal hispânico de que a soberania, na ausência do rei, retornaria aos povos. A iniciativa gerou forte oposição dos “realistas” na América. Em setembro de 1808, foi criada a Junta Suprema Central e Governativa do Reino, que, como o nome sugeria, centralizava os poderes Executivo e Legislativo, como uma tentativa de solucionar a crise da monarquia. As vitórias francesas de 1809 levaram à dissolução da Junta no ano seguinte. Em seu lugar designou-se um Conselho de Regência, logo questionado por algumas províncias da Espanha e vários vice-reinos da América.
A situação demandava uma solução. Em 1812, a reunião das Cortes em Cádiz, na Espanha, para a elaboração de uma Constituição, dedicou-se a encaminhar as preocupações das províncias da Espanha e de muitas partes do Novo Mundo. O Parlamento espanhol tentava, assim, prover um meio pacífico aos autonomistas americanos para a obtenção da ordem local. Os extensos debates naquele congresso transformaram o mundo hispânico.
A Constituição promulgada não foi apenas um documento espanhol, foi igualmente americano. Pode-se dizer que, sem a participação dos deputados do Novo Mundo, dificilmente a Carta de 1812 tomaria a forma que tomou. Foram abolidos as instituições senhoriais, a Inquisição, o tributo pago pelas comunidades indígenas e o trabalho forçado – como a mita na região andina. Também foi criado um estado unitário com leis iguais para todas as partes da monarquia, restringida a autoridade do rei e confiado às Cortes o poder de decisão final. O direito de voto conferido a todos os homens (com exceção dos de ascendência africana), sem exigência de renda ou grau de alfabetização, torna a Constituição de Cádiz superior às dos demais governos representativos de sua época – como Grã-Bretanha, Estados Unidos e França –, estendendo direitos políticos à vasta maioria da população adulta masculina.
Mas os avanços representativos não foram suficientes para conter as guerras civis que desde 1810 se desenrolavam na América. Estavam em lados opostos aqueles que, insistindo na formação de juntas locais, se recusavam a aceitar o governo na Espanha, e aqueles que reconheciam a autoridade central da Regência e das Cortes. As divisões políticas entre os membros das elites mesclavam-se às antipatias regionais e tensões sociais.
Em 1814 os conflitos se agravaram. Naquele ano, após a derrota de Napoleão, Fernando VII voltou ao trono, aboliu as Cortes e a Constituição e restaurou o absolutismo. Livres das restrições constitucionais, as autoridades régias no Novo Mundo perseguiram e sufocaram a maioria dos movimentos que buscavam autonomia. Somente a região mais isolada do Rio da Prata permaneceu fora do alcance da repressão deflagrada pela já enfraquecida monarquia espanhola.
· A repressão desencadeou reações decisivas entre os partidários da independência, ainda em minoria. Em 1817, na Venezuela, os republicanos retomaram a luta iniciada por Simon Bolívar seis anos antes, quando era oficial do Exército revolucionário e foi declarada a independência. Em 1812, os espanhóis haviam retomado o poder e ele deixara o país. Retornou em 1819, com o apoio do independente Haiti, para retomar a revolução. Naquele ano, habitantes da Nova Granada (hoje Colômbia, Venezuela e Equador) e venezuelanos derrotaram os realistas em Boyacá, forçando o vice-rei e outros altos oficiais a deixar Bogotá.
O ritmo e a intensidade das lutas variaram bastante. Nas regiões no norte da América do Sul, a militarização e a centralização política foram características marcantes. Convocado por Bolívar em fevereiro de 1819, o Congresso de Angostura (hoje chamada Ciudad Bolívar), na Venezuela, legitimou o seu poder. Em dezembro, criou-se a República da Colômbia – por vezes chamada de Grã Colômbia –, incorporando Venezuela, Nova Granada e Quito. Contrariamente ao espírito da Constituição de Cádiz, a nova Constituição colombiana criou um governo extremamente centralizado, com autoridade excessiva atribuída ao presidente Bolívar.
No sul, o militar José de San Martín, depois de bem-sucedida campanha nos Andes, obteve em fevereiro de 1818 uma vitória decisiva sobre as forças espanholas na batalha de Chacabuco. No Rio da Prata (hoje Argentina) e na capitania geral do Chile, os autonomistas ganharam controle precocemente, depois de poucos conflitos armados no combate aos realistas. Depois de 1818, os contingentes militares deixaram essas regiões para assegurar a independência do Peru, ao norte, mesmo com as tropas realistas permanecendo no sul.
A aprovação de outra Constituição em 1820 na Espanha provocou respostas diferentes nas quatro grandes regiões americanas (Nova Espanha, Prata, Nova Granada e Peru). Os povos da Nova Espanha (atual México) e da Guatemala receberam as notícias com entusiasmo, e nos meses seguintes realizaram eleições para diferentes ayuntamientos constitucionais, deputações provinciais e as Cortes. A instabilidade política da Espanha, que já durava cerca de doze anos, havia convencido uma parte dos novohispanos que era mais prudente estabelecer um governo autônomo no interior da monarquia. Quanto aos autonomistas, os membros da elite que haviam adquirido poder com os processos de independência, optaram pela instauração de uma monarquia constitucional.
Dois cursos de ação foram seguidos. Os deputados da Nova Espanha junto às Cortes propuseram um projeto para a autonomia do Novo Mundo que criava três grandes reinos americanos governados por príncipes espanhóis e aliados à Península. Mas a maioria espanhola nas Cortes rejeitou a proposta, temerosa de dar aos americanos a autonomia buscada desde 1808. Ao mesmo tempo, autonomistas da Nova Espanha se aliaram ao coronel Agustín de Iturbide, um realista simpático ao plano de autonomia, que muito se assemelhava ao proposto às Cortes. A independência do México foi assegurada em 1821 sem confronto militar, quando Iturbide e seus seguidores ganharam o apoio da maioria do exército real. No ano seguinte, Iturbide tornou-se imperador do México, como Iturbide I.
O episódio desencadeou adesões das províncias da América Central, que também declararam sua independência naquele ano, juntando-se ao Império mexicano. Em 1823, entretanto, com o fim do período monárquico (Iturbide se indispôs com militares, que o depuseram), separaram-se do México e passaram a formar a Federação Centro- Americana.
Na América do Sul, em 1820, as tropas republicanas no norte deram início à libertação da Venezuela e de Nova Granada. Em outubro do mesmo ano, Guayaquil (no atual Equador) tornou-se independente e, formando uma república, tentou, sem sucesso, libertar as províncias das terras altas, então pertencentes à jurisdição de Quito. Uma força mista, composta sobretudo por tropas locais, reunindo colombianos e homens do exército de San Martín sob o comando do general Antonio José de Sucre, acabou derrotando as tropas espanholas em Quito, em maio de 1822. Bolívar, que chegou do norte em junho com mais combatentes colombianos, incorporou a nova região libertada à República da Colômbia. Decretou, a seguir, lei marcial no antigo reino de Quito, de modo a poder melhor recrutar homens, confiscar dinheiro, víveres e suprimentos para continuar a luta contra os realistas no Peru, o último bastião do poder do rei de Espanha na América do Sul.
As forças sulinas lideradas por San Martín chegaram a Lima em agosto de 1820. Seu exército de libertadores compunha-se de chilenos e rio-platenses. Embora controlasse o litoral, San Martín não conseguiu derrotar os realistas no altiplano. Os constitucionalistas espanhóis quase expulsaram suas tropas do litoral. A vitória haveria de esperar pela chegada do exército de Bolívar à região, anos depois. E mesmo com a derrota impingida aos realistas pelo general Sucre na batalha de Ayacucho, em dezembro de 1824, a região do Alto Peru continuaria sob o controle das forças realistas, que só se renderiam em 1826.
Um ano depois do reconhecimento da Independência do Brasil por Portugal, terminava o processo de independência das colônias hispano-americanas. O continente americano saía desse processo radicalmente transformado. Novos estados politicamente soberanos vão se afirmar deste lado do Atlântico, sob a forma de repúblicas modernas, tornando indelével o modelo de moderno estado-nação que se generalizará em todo o hemisfério ocidental no início do século XX.
Maria Elisa Mäder é doutora em História Social pela Universidade Federal Fluminense e professora de História da América na PUC-Rio. Organizadora, com Marco Antonio Pamplona, de Revoluções de independências e nacionalismos nas Américas (Coleção Margens, Paz e Terra, 2007).
Saiba Mais:
BETHELL, Leslie Ed. (org.). História da América Latina. Da Independência até 1870. Vol. III, São Paulo: Edusp; Imprensa Oficial do Estado; Brasília, DF: Fundação Alexandre Gusmão, 2001.
FUENTES, Carlos. O Espelho Enterrado. Reflexões sobre a Espanha e o Novo Mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.
GUERRA, François-Xavier. “A Nação na América espanhola: a questão das origens”, Revista Maracanã. Rio de Janeiro: Uerj, 1999/2000, Ano I, nº 1.
Site: https://www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/vizinhanca-em-ebulicao
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